Todos nós sabemos da quantidade de imigrantes que exite por aqui. É visível, é só olhar à sua volta e ver quantos asiáticos ou árabes circulam por aí, não é mesmo? Quase não se vê canadense!

Quando fiz meu voluntariado aqui em Toronto, conheci um senhor muito bacana de uns 75-80 anos que era um típico canadense ou, como ele mesmo me ensinou, um verdadeiro “WASP” (white, anglo saxon and protestant). A verdade é que ele era um holandês ateu e imigrou pro Canadá no final dos anos 60 por gostar da liberdade que o país proporcionava, já que lá na Holanda, segundo ele mesmo, todos vigiavam a vida uns dos outros e olhavam torto pra sua esposa que é filipina, justamente por ela se destoar do restante. “Em Toronto, principalmente, isso não existe.”

Ele que já estudava inglês desde os tempos de escola, quando atendeu o telefone do clube na minha frente começou de repente a falar em holandês. Quando desligou, ele disse bem-humoradamente: “Depois de todos esses anos de Canadá, eu ainda tenho sotaque?” E continuou: “…conversando com essa senhora no telefone, ela me perguntou se eu era holandês. Acredita nisso?” Eu ri, rs.

Outra colega do voluntariado, uma também senhorinha muito simpática de mais de 70 anos, com inglês perfeito – livre de qualquer suspeita – conversando comigo sobre nem lembro mais o quê, disse: “Nós imigrantes…” Eu parei e questionei: “Você é imigrante?” Ela respondeu que sim, que veio ainda menina, mas que se lembrava de como era difícil a adaptação no começo, mas que sempre que possível ia visitar sua família na Escócia. Claro que o fato de ela ser escocesa facilitou a adaptação pois não existiu a barreira do idioma, mas de qualquer forma o que mais me impressionou é que ela mesma se considerou imigrante, mesmo já vivendo no país há mais de 50 anos.

Ainda dentro do grupo de voluntários, um senhor britânico de uns 60 anos perguntou de onde eu era e, quando disse que era do Brasil continuou a conversa em português com sotaque de Portugal! Oras pois, como falas português? – pensei, haha. Então ele me disse que sua esposa era portuguesa e que ele mesmo prestava consultoria para algumas empresas brasileiras e que sempre que possível, gostava de praticar o idioma. Disse que já vive aqui no país há muitos anos e que seu irmão até brinca que ele já não fala mais o inglês britânico, rs.

E pra finalizar, quero lembrar de um facilitador de um grupo de conversação do qual eu participei. Estávamos sentados em volta de uma mesa redonda, eu, um casal de brasileiros, um russo, um romeno, um iraquiano, um chinês e duas japonesas. Ele chegou, todo elegante, simpático e educadamente se apresentou como o facilitador da conversa, disse que sua principal motivação em ajudar no grupo era o de trocar experiências com outras culturas. Feitas nossas apresentações e dos motivos que nos levaram a vir pro Canadá, ele contou, para a nossa surpresa, que assim como todos nós ali na mesa, também era um imigrante e que só não tinha sotaque porque tinha vindo pro Canadá com 5 anos de idade, mas que seus pais eram da República Tcheca, refugiados da guerra.

Às vezes nós mesmos criamos um esteriótipo do canadense e outro do imigrante, como se fossem duas coisas totalmente diferentes, nos esquecendo de que o país sempre foi aberto à imigração, sem contar que seus primeiros povos tem origem asiática. Mas se conhecermos melhor uns aos outros podemos perceber que nossas histórias não são tão diferentes assim e que no final das contas seremos todos pra sempre e por sorte, imigrantes do Canadá.

Caso você esteja se perguntando o que o Donald Trump tem a ver com o Canadá, eu explico. Esse é mais um trabalho realizado pela aclamada artista Nancy Burson que criou a Age Machine, tecnologia que simula a transformação física de uma pessoa com o passar dos anos. Foi usada pela FBI para encontrar crianças ou adultos desaparecidos. Mais recentemente ela criou a Humam Race Machine, para fazer com que pessoas pudessem se ver com outros traços, pois estudos apontam que durante estes testes nosso cérebro cria uma empatia com outras “raças” alterando nossa visão sobre a raça humana. Nesse seu último trabalho chamado de What if He were: Black-Asian-Hispanic-Middle Eastern-Indian, utilizando a Humam Race Machine, a esperança é que Donald Trump pudesse se ver de outras formas e ser menos preconceituoso, mesmo que inconscientemente. Não tem como falar de imigração e não lembrar dele e do seu discurso, especialmente hoje em dia, num mundo cada vez mais globalizado.

Vanessa Vitta.