Não sei nem se posso chamar meu trabalho voluntário de trabalho. Passei 3 meses ajudando no escritório do clube de vela para pessoas com deficiências físicas da grande Toronto – Queens Quay Disabled Sailing Program – porém, num programa relativamente novo, para jovens com autismo/síndrome de down – Get On Board!

Achei a vaga pesquisando no Volunteer Toronto. Já tinha um currículo-matriz então só precisei fazer alguns ajustes e enviar via e-mail. A vaga tinha acabado de ser aberta e pra minha surpresa, no mesmo dia recebi a resposta da gerente do programa. Começamos a conversar via email e por fim ela me ligou e foi super objetiva. “Precisamos de alguém que possa receber os alunos e seus pais, se certificar que alguns documentos sejam preenchidos e assinados e, o pagamento recebido. Ah e também ajudar como camp counselor com os jovens nos intervalos e nos passeios de barco. Você tem algum problema em trabalhar com cães? Alguns alunos veem acompanhados de um cão-guia.”

Não poderia me sentir mais confortável naquele lugar. Fui super bem recebida por todos e o trabalho por si só não foi tão difícil, tanto que eram duas vagas mas uma menina caiu fora e eu fiquei sozinha.

Além do inglês suuuuper corrido, o que pegou bastante no começo foram algumas palavras específicas de navegação, mas que depois de um tempo você percebe que mesmo outros canadenses que também estavam lá pela primeira vez não conheciam.

Não vou mentir. Curti pra caramba, afinal, estávamos no auge do verão e eu passava 2 dias da semana no Harbourfront numa saleta de frente pro lago Ontário e no final do dia dava um passeio de uma hora de barco com o pessoal.

Mas como estou escrevendo sobre o voluntariado – rs – vamos falar de trabalho e o que eu aprendi lá!

Voluntariado é TROCA. Todas as pessoas envolvidas precisam gostar do que estão fazendo, seja ela o aluno que vai passear de barco pela primeira vez, ou seja o instrutor que também está lá porque quer dar uma escapada do dia-a-dia e esfriar a cabeça.

Voluntariado é SOCIALIZAÇÃO. Saber lidar com pessoas é fundamental em qualquer atividade que a gente faça. Lidar com pessoas muito diferentes de você é sempre um exercício de socialização. Mais do que isso, enxergar também as diferenças que te puxam pra cima. Vi pais, que tinham todos os motivos do mundo para se entregarem, chegarem cheios de energia pra verem o filho dar uma volta de barco.

Voluntariado é DESENVOLVER HABILIDADES PROFISSIONAIS. Algumas vezes me senti numa situação que, ou eu tomava o controle ou eu era controlada por ela. Assumir algumas responsabilidades, passando por cima de inseguranças pessoais, a fim de obter um resultado final é muito bom e encorajador. No final você tem a sensação de “não foi tão difícil assim”. E quanto mais você pratica, mais fácil fica.

Voluntariado é NETWORK. Construir laços é fundamental, principalmente pra quem está chegando num novo país. Pode ser que essa pessoa se torne apenas uma referência pra que você possa conseguir seu primeiro emprego, mas pode ser que ela desperte em você alguma curiosidade sobre algo que você não conhecia antes. Descobri muito sobre autismo e fiquei impressionada como podemos ser intolerantes uns com os outros por pura ignorância do assunto. Tive aulas grátis de navegação, troquei informações sobre a cidade de Toronto, sobre a cultura canadense, sobre ter filhos, envelhecer com saúde mental, sobre crenças…

Enfim, acho que se deixar posso ficar aqui escrevendo por mais 3 horas.

Minha dica, ache algo que você goste de fazer, e que não seja um fardo. Tenho certeza que só isso já facilita todos os outros fatores que eu listei.

Quem se interessar pelo programa/voluntariado, vou deixar o link da página do Facebook que eu criei, pra vocês conferirem. As vagas de voluntários começam sempre no começo do ano.